Com incidência inferior a 0,03% em estudos de necropsia, os tumores primários do coração são extremamente raros e geralmente provocam sintomas inespecíficos. Quando malignos, a maioria desses casos corresponde ao tipo sarcoma.
Uma mulher de 23 anos procurou um pronto-socorro com falta de ar progressiva e palpitações que persistiam havia quase três semanas. Jovem e sem histórico de doenças, o quadro inicialmente sugeria embolia pulmonar ,hipótese reforçada por alterações em exames laboratoriais. No entanto, a tomografia descartou a presença de coágulos no pulmão e revelou algo inesperado: uma massa de cerca de 6 centímetros no átrio esquerdo do coração.
O diagnóstico final foi ainda mais incomum: sarcoma intimal cardíaco, um tipo raro e agressivo de câncer que se origina no próprio coração.
De acordo com o relato publicado na revista científica Case Reports and Case Series in Cardiology Journal (CRCSCJ), a paciente foi submetida a cirurgia de urgência. Durante o procedimento, os médicos precisaram retirar parte do átrio esquerdo para remover o tumor. O exame anatomopatológico confirmou tratar-se de um sarcoma de alto grau.
Cinco meses após a operação, já em acompanhamento oncológico, novos exames identificaram metástases no cérebro.
O caso evidencia um paradoxo da medicina: embora o coração seja frequentemente associado à vida, os cânceres que se originam nesse órgão são extremamente raros — e, por isso, pouco conhecidos.
O que é câncer de coração?.
Por que é tão raro?
Até o momento, não há uma causa hereditária claramente estabelecida nem fatores externos bem definidos associados ao surgimento de tumores cardíacos. Segundo o oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, a explicação pode estar relacionada à própria biologia do coração.
Diferentemente de órgãos como intestino, pele ou pulmão, cujos tecidos se renovam constantemente, o músculo cardíaco apresenta uma taxa muito baixa de divisão celular. Como o câncer geralmente surge a partir de erros que ocorrem durante a duplicação das células, quanto menor é essa multiplicação, menor também é a probabilidade de acúmulo de mutações.
“Qualquer célula que se divide pode apresentar erros nesse processo. O coração não está imune a isso, mas não é um tecido que precisa se renovar continuamente”, explica Stefani.
Quais são os sintomas?
Um dos principais desafios é que os sinais do câncer cardíaco costumam ser **inespecíficos** e podem se confundir com outros problemas cardíacos ou respiratórios. Entre os sintomas mais comuns estão:
* falta de ar;
* palpitações;
* fraqueza;
* dor no peito;
* desmaios.
“São sintomas que não são típicos de tumor”, explica o oncologista Stephen Stefani.
Em muitos casos, o paciente chega ao hospital com um quadro semelhante ao de insuficiência cardíaca. Foi o que ocorreu com a jovem de 23 anos relatada no estudo: o tumor provocava obstrução da válvula mitral, comprometendo a circulação dentro do coração.
Além do risco relacionado ao câncer, existe também um risco mecânico imediato.
“Uma massa dentro do coração pode bloquear o fluxo sanguíneo, provocar choque cardiogênico ou até causar um AVC caso fragmentos do tumor se desprendam”, afirma o cirurgião cardiovascular Ricardo Katayose.
Como é feito o diagnóstico?
Como não é possível realizar facilmente uma biópsia com agulha no coração, o diagnóstico costuma depender principalmente de exames de imagem, como:
* ecocardiograma;
* ressonância magnética cardíaca;
* cateterismo, em casos específicos.
Em muitos pacientes, o diagnóstico definitivo só é confirmado após a cirurgia, quando o tecido retirado é analisado em laboratório.
No caso descrito no estudo, o tumor foi inicialmente identificado por tomografia e posteriormente confirmado por ecocardiograma, que mostrou uma obstrução importante do fluxo sanguíneo dentro do coração.
Os tumores cardíacos são massas anormais que se desenvolvem dentro ou ao redor do coração. Eles podem ser classificados em dois tipos:
* Primários: quando surgem no próprio coração;
* Secundários (metástases): quando se originam em outro órgão e se espalham até o coração.
Os tumores secundários são significativamente mais comuns. “Os casos secundários são de 20 a 130 vezes mais frequentes do que os primários”, explica o cirurgião cardiovascular Ricardo Katayose, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo.
Já os tumores primários são raríssimos. Em estudos de necrópsia, a incidência varia entre 0,001% e 0,03%. Quando malignos, cerca de 65% correspondem a sarcomas, um tipo de câncer que se desenvolve em tecidos de sustentação do corpo, como músculos, vasos sanguíneos e tecido conjuntivo.
Cirurgia como tratamento de primeira linha
A principal forma de tratamento para tumores cardíacos é a cirurgia.
“É um procedimento de altíssima complexidade. Diferentemente de uma troca de válvula, não existe um roteiro previsível. Cada caso acaba sendo uma surpresa”, explica o oncologista Stephen Stefani.
Dependendo do tipo de tumor e da presença de metástases, o tratamento pode incluir também quimioterapia complementar após a cirurgia.
O prognóstico costuma depender principalmente de um fator: a possibilidade de retirar completamente o tumor com margem de segurança.
Mas o que isso significa?
Na cirurgia oncológica, não basta remover apenas a parte visível do tumor. O cirurgião também precisa retirar uma pequena área de tecido saudável ao redor da lesão. Essa chamada margem de segurança aumenta as chances de eliminar células microscópicas que não podem ser vistas durante o procedimento.
Após a cirurgia, o tecido removido é analisado em laboratório. Quando as bordas da peça retirada não apresentam células cancerígenas, diz-se que a margem é negativa — considerado o melhor cenário. Já quando há células tumorais nas bordas, pode significar que parte da doença permaneceu no coração, o que eleva o risco de recidiva.
Nos tumores cardíacos, alcançar essa margem adequada é especialmente difícil. O coração é um órgão vital, com estruturas delicadas e funções que não podem ser amplamente removidas.
Mesmo assim, quando a retirada completa do tumor é possível, especialistas afirmam que existe chance real de cura.
“Se conseguirmos ressecar todo o tumor, como ocorre em outros sarcomas, podemos falar em possibilidade de cura”, afirma Stefani.
No entanto, isso nem sempre é viável. Tumores infiltrativos, como alguns angiossarcomas, podem ser mais agressivos e difíceis de remover totalmente.
Prognóstico: o que se sabe
Como se trata de uma doença extremamente rara, os dados sobre o prognóstico ainda são limitados. Na literatura médica, a sobrevida média após o diagnóstico de tumores cardíacos malignos varia entre três e doze meses.
Estudos indicam que menos de 15% dos pacientes sobrevivem por mais de cinco anos.
No entanto, especialistas ressaltam que esses números podem variar bastante. Como os casos são raros, há poucos estudos amplos, e os resultados dependem de fatores como o subtipo do tumor e a experiência do centro médico responsável pelo tratamento. A falta de grandes pesquisas dificulta estabelecer padrões mais definitivos.
Quando suspeitar?
Não existe exame de rastreamento específico para câncer de coração. Na maioria das vezes, a investigação começa quando sintomas persistentes não encontram explicação em causas mais comuns.
Nesses casos, um ecocardiograma pode revelar a presença inesperada de massas dentro do coração.
“O tumor cardíaco muitas vezes é silencioso. Quando começa a dar sinais, ele já pode estar grande”, resume o cirurgião cardiovascular
Ricardo Katayose.



